Acalanto

- Solitária castanheira
Qual será a tua idade?
Não tens eira nem tens beira
Como chegaste à cidade?

O que fazes por aqui,
Castanheira amargurada,
Feito boto tucuxi
Em vazante enluarada,

Debaixo da siriúba,
Esperando a namorada?
Onde estão tuas parceiras
Castanheira apavorada?

- Eu não sei, isto era prenhe,
E não longe vão as datas,
De troncos, flores, solenes,
Cá reinavam nestas matas

Castanheiras como eu.
Por acaso tu não lembras?
Tu que foste pra cidade?
Que destas matas nasceu?

Nem sentiste a minha dor
Não sofreste como eu.
Não viste os golpes que em outras
No meu tronco então doeu,

Quando o ferro o golpe deu.
Eu gritei, chorei de dor
Vendo ao meu lado o terror
Da mata se desfazendo.

Não pude sair correndo.
Sou plantada neste chão.
Neste chão que tu pisaste.
Que amassaste com a mão.

Fui poupada pelo fado
Ou vontade de Tupã.
Foram todas derrubadas
Isto aqui virou terçã.

Meu consolo é minha sina.
A saudade é o meu destino.
A amargura a minha rima.
Este chão é o meu caminho.

O caminho que não ando
O chão que fico chorando,
Quando lembro a minha flor.
Não mais vem a mamangaba.

Tudo enfim me abandonou.
Meus ouriços já não jogo
Meus galhos eu já não dobro
Ao peso que a fruta faz.

Só os dobro ao vento leve
Abanando a imensidão
De ficar aqui sozinha
Curtindo esta solidão.

- Castanheira te aquieta.
Dá folga ao teu coração.
Se o teu coração se aperta,
Imagina o meu então!

Eu vi, eu sei, eu também
Fui plantado neste chão.
Eu corri por estas matas
Eu juntei ouriços teus.

Teus sonhos, teus rios e vales,
Foram os mesmos que os meus.
Eu parti, fui correr mundo.
Mas levei no coração,

A tua tez altaneira
Que varava o firmamento,
Que era sombra no luar.
Mas vê que a sina que é minha,

Sempre aqui me faz voltar.
Se volto, sofro contigo.
Vou pra mata te levar.
Cantando rimas em versos,

E em estrofes te alegrar.
Deixa comigo a semente.
Dos teus ouriços ausentes.
Deixa que eu planto no peito

De cada chão que encontrar.
E tu vais nascer de novo
Na Serra do Trocará.
Nas margens do Apinagés.

Nos vales do Pacajá.
E de novo anta e tatus
Aos teus pés irão estar,
E a cutia vai roçar.

Vais ver Saci Pererê.
Curupira e Boitatá.
No teu galho em vento brando.
A guariba vai cantar.

E a arara escandalosa,
Fazendo surda a floresta,
Com gritos de quem faz festa
Nos teus galhos vai pousar.

Castanheira solitária.
Não chores, não sintas dor.
Tu és linda e altaneira
Mesmo assim, sem fazer flor.

A flor és tu, na cidade,
Castanheira, meu amor!
És agora monumento.
Teus galhos balançam ao vento

De novos e verdes tempos,
De um tempo de nova cor.
Onde o homem inconseqüente
Que das outras te privou

Não mais quer a mão de ferro
Que tanto te magoou.
Foi Tupã que te poupou,
Se o ferro não te cortou.

Foste tu a escolhida.
A cidade te sobrou.
Olha agora estas paragens.
Que a solidão descampou.

Não sofras mais castanheira.
Vais ver jovens se formando.
Vais ver crianças brincando.
Conta a eles teu passado.

Conta a eles o teu fado.
Ser humano é também flor.
Como rosas, com espinhos,
Mas no peito tem amor.

Castanheira solitária,
Sorri no sol da cidade.
Teu ouriço está plantado.
Bem no fundo deste chão.

Castanheira de eira e beira,
Toma um beijo, meu amor.
És linda, doce e faceira.
Não chores, não sintas dor.

3 comentários:

  1. Obrigado Eliete. Obrigado Benny. Só gosta de poesia quem tem o coração aberto.

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