A rosa e o beija-flor

Era outono em fim de agosto
Num jardim repleto em flor
Um casal ainda moço
Conversa com certo ardor:

- Feiticeira, como tens passado?
Que feitiços tens lançado?
Será que aqui pro meu lado,
Teus feitiços tens jogado?

Conta-me da tua vida.
Conta-me do teu passado.
Teus amores diz pra mim.
Que ando triste e angustiado.

Que fizeste com meu fado?
Em que sina estou largado?
Pois, pequena feiticeira,
Deixaste-me enfeitiçado!

- Passo como quer a sina,
A sina que não decido,
Pois se decidisse a minha,
Meu já eras meu querido.

Mas veja que sortilégio:
Eu que aos outros dou feitiços,
Quando é meu o privilégio,
Nada sei fazer, enguiço!

Minha vida é meu passado,
Meus amores eu não digo,
Por que estas angustiado?
Angustiada eu que vivo...

- Que marota feiticeira!
Que bruxa dissimulada!
Eu aqui sem eira e beira
E você aí parada!

Eu pensando que não queres
O meu amor receber,
Meu peito com isto feres,
Nem sei como te dizer...

Então corre pros meus braços!
Enrosca teu peito ao meu.
No caldeirão faz um laço
E amarra meu corpo ao teu!

- Que negócio é este de laço?
Mancebo afoito! Com calma!
Eu correr para os teus braços?!
Sinto calafrios na alma!

Sou mocinha recatada,
Tímida e muito sutil.
Correr aos teus braços, que nada.
Você tem curto o pavio...

Primeiro os olhos me pisque,
Roce minha mão na sua.
Primeiro o meu nome risque
No muro do fim da rua...

- Desculpe meu doce amor,
Tanta pressa e agonia.
Seu feitiço é como a flor,
Que brota ao raiar do dia

E o beija-flor encanta
Que no ar se rodopia
E atazanado se espanta
Quando vê que a alegria

De amar e ser amado,
Termina ao final do dia...
E ele triste e ensimesmado
Nos espinhos se alivia...

- Não seja tão dengosinho,
Meu beija-flor bailarino.
O meu há de ser seu ninho
Mas voa devagarinho...

Sou bruxinha verde ainda,
Flor que nem desabrochou.
A inocência é tão linda,
Seu pássaro pecador...

Mas eu vou pecar contigo.
Afinal já sou mocinha
E não vou ficar prá sempre
Como uma casta bruxinha...

- Que pecado coisa alguma!
Não é pecado é amor!
É paixão que o peito apruma
E arrebata com fervor!

Bruxinha tão recatada,
Feiticeira minha amada,
Minha paixão derramada
Corre ao teu corpo afobada,

Querendo te cobiçar!
E a minha alma toda canta
E o meu amor se alevanta,
Para o teu amor amar !

- Ai, amor da minha vida,
Eu tremo que não agüento!
Por ti toda estou caída,
Como folha solta ao vento!

Vou correr para os teus braços,
Abraçar teu corpo ao meu.
No caldeirão faço um laço
E tranço meu peito ao teu!

Eu que feiticeira era.
Meu feitiço se inverteu:
Meu feitiço foi quimera
Enfeitiçada estou eu...

E lá se foram os amantes,
Pelos campos a bailar,
Campos mais que verdejantes
Ninguém deve duvidar,

Que a rosa quando se abre
Quer o beija-flor chamar.
Quer que ele se embriague
Pra só depois soluçar...

7 comentários:

  1. eu já vi um beija flor em uma rosa bem aqui,mas ele fugiu...

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  2. O que foi? A flor parou de produzir pólen?

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  3. Parou.Ficou triste com o descuido do jardineiro...

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  4. “Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno”.Machado de Assis

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  5. "não se admire se um dia um beija-flor invadir a porta da sua casa de der um beijo e partir, fui eu que mandei o beijo"
    ajardineira

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  6. Olá Jardineira,

    Folgo em vê-la, ainda, pelo jardim.

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